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Ecumenismo:Caminho de humanização e escola de amor

ECUMENISMO: CAMINHO DE HUMANIZAÇÃO E ESCOLA DE AMOR
Para nós que acreditamos na verdade de Deus, do Evangelho de Jesus Cristo, nos valores profundos de uma nova humanidade, a unidade, como lugar comum de esperança de todos os povos tem muito a nos dizer. A unidade, para os antigos, era símbolo e expressão máxima da realização humana, a começar pelos laços de família, até a mais íntima forma de unidade manifesta no laço da vida que é a amizade. É deste desejo que a Igreja sempre se alimentou nos primeiros momentos de seu nascimento, e é aqui que reside a casa da comunhão que era uma busca comum do bem de todos, a preocupação constante pela participação de todos.

O INÍCIO: A FORÇA DO EVANGELHO DA UNIDADE
O evangelho estava começando a frutificar, todas as suas potencialidades começavam a florir, era necessário então criar espaços que pudessem hospedar a todos, uma casa que fosse elo desta unidade de todo gênero humano, assim a Igreja começou a trabalhar na obra da unificação de todos os homens, mas agora não mais levados pelo regime antigo do medo e da opressão, mas pela nova lei de Cristo, o amor. Fiéis à mensagem do evangelho os cristãos começavam a perceber o sentido profundo da verdade contida nas palavras de Cristo “Pai que todos sejam um para que o mundo creia” (Jo 17,12), não se tratava de um aspecto conceitual de unidade, mas de uma prática nascida da experiência com Cristo, que os apóstolos pouco a pouco souberam colher daquela convivência de três anos, uma convivência cheia de ternura e carinho, cheia de surpresas e carregada de afeto filial e de amizade: “não vos chamo de escravos, mas de amigo, pois somente o amigo deixa conhecer ao outro seus profundos segredos”.
Este laço deveria se estender entre eles: “Se eu vosso mestre e senhor, vossos pés hoje lavei, lavai então os pés uns dos outros, eis a lição que vos dei” (Jo 13,12-14). Isto implicava então numa nova atitude de vida, colhida na abertura de coração, na simplicidade do viver com Cristo, “pois quem quiser ser meu discípulo tome a sua Cruz”, tratava-se da grande novidade, porque segui-lo implicava numa configuração de vida nova, nascida daquela experiência, brotada daquele convívio tão marcante, que convidava sempre à proximidade: “vinde a mim… pois sou manso e humilde de coração” (Mt 11,28-30), era necessário deixar as ervas da ninha, a dureza de coração, o egoísmo arraigado, a cruz era símbolo da “porta estreita”, do “caminho apertado”, pelo qual só passa o homem novo, transfigurado da vida de Cristo, configurado a ele: “não sou eu que vivo, mas Cristo que vive em mim” – “A ciência incha, a caridade edifica”. Era a morte do homem velho, abertura a novidade do Deus da vida, que nos gerava para uma nova existência, cujo cerne era a vida em Cristo servo e por isto amigo: “Eu não vim para ser servido, mas para servir isto é dar a vida”.
Aqui podemos colher um dado fundamental que a filosofia existencial soube bem expressar ao dizer que o homem só encontra sentido para a própria vida à medida que sabe sair de si mesmo para o outro, ou seja como “ser-para-o-outro”.

O ECUMENISMO COMO FORMA E PROPOSTA DA EVANGELIZAÇÃO
Este desejo profundo de viver em plenitude levava os cristãos a gritar o novo tempo, a boa nova de uma grande noticia: que o homem agora era livre, passou o regime de escravidão, “o muro de separação, a inimizade caiu, já não existe mais nem grego, nem escravo, nem macho, nem fêmea”. Em Cristo, começava a nova humanidade. Mas não foi fácil fazer germinar todas a potencialidades do evangelho da graça. Havia em cada homem o terrível duelo do bem e do mal, do pecado e da graça, do fazer a vontade de Deus ou do seguir os próprios caprichos e veleidades. Este drama ainda permanece entre nós, mas sempre haverá espaço para responder e para decidir de que lado queremos estar, da construção de um mundo novo, da “cultura da vida”, da “civilização do amor”, onde podemos ser os novos protagonistas, ou se queremos estar do lado da “cultura da morte”, que semeia a violência, a morte, o ódio, a divisão, a concorrência… em fim o pecado.
Foi com a intenção de formar o mundo novo da “não-violência”, do grito da paz que em nosso século surgiram vozes proféticas que convidaram a humanidade a este caminho de comunhão, e portanto de ecumenismo. No mundo grego, ecumenismo significava “terra habitada”, e tinha o sentido de “povo civilizado”, de cultura aberta, tanto com uma perspectiva geográfica, como de civilização. Já no cristianismo, a palavra é utilizada numa perspectiva espiritual: a “terra habitada” passa a ser considerada obra de Deus, tornada habitável pela colaboração humana. Assim, assume a conotação de uma tarefa a realizar.

VIRADA ECLESIOLOGICA: O CONCÍLIO VATICANO II, A VERDADEIRA PRIMAVERA DA IGREJA
Foi neste sentido que a voz ainda sonora e sorridente, que do ceu continua a sorrir-nos, que o Papa Joao XXIII, conhecido pelo mundo como “Il Papa Buono” soube transmitir os segredos profundos de uma alma sedenta de unidade, de humanidade.
Este papa convocou o Concílio ecumênico do Vaticano II, sua intenção era novamente realizar a tarefa do evangelho de unir os corações, tarefa difícil, mas que ele conseguia ver a possibilidade, e por isto abriu a Igreja para ser a protagonista desta nova humanidade, podemos neste momento deixar soar em nós a palavras vivas deste bom papa.
Ele havia compreendido em profundidade o sentido do Evangelho, sabia que esta graça da Palavra de Deus não era uma violência, nem mesmo uma agressão, mas a voz de Deus que ressoa em cada coração repleto de boa vontade: “O evangelho, dizia ele, não muda, nós é que mudamos e aperfeiçoamos a nossa compreensão sobre ele”.
Ele sabia bem a revolução que estava contido no Santo Evangelho, que ele era caminho, luz e verdade capaz de iluminar e de encher de vida os homens, de uni-los naquilo que cada um traz de mais belo e de mais profundo dentro do tesouro de seu próprio coração, por isto convidava a todos no dia da abertura do Concílio Ecumênico: “Buscai primeiramente aquilo que une, antes de buscar o que divide”. Isto o levava a considerar os pontos essenciais do homem e da fé, era necessário uma limpeza, a abertura de nossas janelas, para deixar o ar de fora oxigenar por dentro, pois o que tem valor na vida é aquilo que fica: “O que tem mais valor na vida é Jesus Cristo bendito, a sua Santa Igreja, o seu Evangelho, a verdade e a bondade”.
Este modo de pensar levaria a Igreja a um novo caminho, a uma nova trilha nunca antes feita, mas redescobria-se nela a sua profunda humildade e humanidade, a Igreja como povo de Deus em peregrinação, sempre em reforma e conversão (Ecclesia semper renovanda). Mudava-se radicalmente a Imagem da Igreja, agora não mais piramidal, dividida em castas, mas circular, onde todos eram convidados a participarem, a ter voz e vez, tarefa não de toda fácil, como bem frisou Dom Helder Câmara no termino do Concílio Vaticano II: “Sempre que se procura defender os sem-vez e sem-voz, a Igreja é acusada de fazer política”. O maior desafio deste primeiro momento era vencer as barreiras da rigidez, do olhar superficial e cômodo, da falta de conversão do coração, da dureza do preconceito e da intolerância de não saber ver com os olhos dos outros, em poucas palavras: “O mundo julga pelas aparências e quase sempre se engana” (Papa Joao XXIII). Ele sabia bem o que estava falando, viveu na carne o terror de uma humanidade dividida pela guerra e discordia, um mundo sem paz e repleto de violencia, por isto suas palavras se tornaram vivas e lapidantes:

A justiça se defende com a razão, e não com as armas. Não se perde nada com a paz, e pode perder-se tudo com a guerra. Por isto que a  paz na terra, é anseio profundo de todos os homens de todos os tempos, não se pode estabelecer nem consolidar senão no pleno respeito da ordem instituída por Deus.
Era necessário uma nova compreensão do evangelho: “O evangelho, dizia ele, não muda, nós é que mudamos e aperfeiçoamos a nossa compreensão sobre ele”. Este novo olhar não era conivência com o mal, mas capacidade de deixar o medo que nos impede de aproximar-nos dos outros, bloqueando em nós os sentimentos mais belos do Criador em nós, pondo em nós os óculos da rotulação, dos clichês, sem o medo podemos ver os outros como eles verdadeiramente são, sem sombras, e podemos descobrir através deles quem realmente somos: “Eu já pus meus olhos nos vossos olhos. Já coloquei meu coração junto ao vosso coração”. Isto era um verdadeiro avanço, uma verdadeira revolução ecumênica: “Consulta não os seus medos, mas as suas esperanças e os seus sonhos. Pensa não nas suas frustrações, mas nas suas potencialidades ainda não exploradas. Preocupe-se não com o que você tentou e falhou mas com o que ainda é possível fazer (Papa Joao XXIII). Ele sabia ousar, porque sabia se ouvir, e quem sabe ouvir sabe entender e discernir onde devemos avançar, onde devemos parar, quando devemos começar e quando devemos deixar, pois “a verdade não tem nada a temer do erro”.
Este papa sofreu mundo para ver uma Igreja unida, não a viu, mas seu sonho se tornou realidade, se fez vida, se fez carne, ele não temia as sombras que estavam ao seu redor, em tudo sabia ver o lado belo das coisas, pois: “Se Deus criou sombras é porque foi para melhor enfatizar a luz”. O que o fez tão otimista? O que o levou a acreditar assim? O evangelho e a verdade mais profunda da vida, a verdade de que: “a  humanidade é uma grande, uma imensa família … Isso é provado pelo que sentimos em nossos corações no Natal”.
 Gostaria de refletir mais um pouco de forma vivencial com as palavras de um outro grande homem que lutou muito pela unidade em nosso país, era D. Helder Camara, no ano passado ele foi homenageado em muitos países pelo seu centenário de nascimento. D. Helder era o pastor dos pequenos, com ele todos se sentiam em casa, ele sabia passa o ar da convivência e do amor fraterno que une e que traz paz, era um homem de profunda sensibilidade, soube, com seu geito político mas também honesto e transparente viver e testemunhar os sinais do Concílio, na Catacumba de Sao Calixto, em Roma, ao termino do Concilio ele e alguns bispos, mas de cem, fizeram o voto de pobreza e de total obediência ao Concílio. Onde estava o segredo de D. Helder? Ele diz que em seu sonho de comunhão e de unidade, mas era lúcido em responder que “sonho que se vive só é pura ilusão, sonho que se vive juntos é principio de transformação, vamos sonhar juntos, sonhar companheiro e transformar a nação”.
D. Helder soube colher a voz de Deus em seu tempo, e soube questionar um cristianismo de casta e de nome, reivindicando a força do Espírito. Isto o levava a questionar as injustiças de uma nação que se considerava tão cristã, mas que trazia em seu seio uma grande parte de pobreza e miséria, de sofrimento e dor advindos da mais nua crueldade humana, a pobreza, a falta de oportunidades. Ele começou a mexer com as estruturas, não era fácil, mas era necessário: “Quando dou comida aos pobres chamam-me de santo. Quando pergunto por que eles são pobres chamam-me de comunista”.
Este eco da vida de D. Helder repercutiu em novas estruturas e nova consciência ecumênica dentro da Igreja, os bispos também foram se sensibilizando. Assim o sonho do papa João se tornava realidade para nós, era necessário ver cada cultura, cada povo com um novo olhar, não mais o olhar da uniformidade e do nivelamento, mas naquilo que cada um possui de riqueza e de próprio:

Toda verdade que toma partido pelo todo ou desconhece a diversidade dos povos, culturas e religiões, está fadada a ser rejeitada desde o início. Um conjunto de proposições pode estar cheio de sentido em dado quadro cultural ou religioso, mas, por sua vez, tornar-se objeto irrelevante ou mesmo sem sentido e inaceitável fora deste quadro. Como ser significativo fora do mundo ocidental? Eis um desafio à revelação cristã .
Hoje somos afetados, sobretudo, porque a credibilidade da revelação vem sendo ameaçado por causa da escandalosa ineficácia para a transformação duma realidade social injusta. A linguagem da Igreja neste ano é chamar-nos todos a uma nova perspectiva da economia e também da ecologia. No passado, a fé cristã foi acusada de conivência e justificadora desta situação, este libelo de acusação à fé cristã foi percebido pelos bispos latino-americanos em Puebla:
"Sem dúvidas, as situações de injustiças e de pobreza extrema são um sinal acusador de que a fé não teve a força necessária para penetrar os critérios e as decisões dos setores responsáveis da liderança ideológica e da organização da convivência social e econômica de nossos povos, Em povos de arraigada fé cristã impuseram-se estruturas geradoras de injustiça” (Doc. Puebla 437)
As estruturas sociais de injustiças na América Latina têm rosto e nome. São as mais diversas faces dos pobres (Puebla 31-39). Por qualquer lugar que se ande, encontram-se estes rostos aos milhares. A pobreza sem cara, tema de estudo, objeto de pesquisa, perde este caráter impessoal e assume a carne dolorosa de tantos e tantos. EM OUTROS TERMOS A SITUAÇÃO DE DOMINAÇÃO E OPRESSÃO DA AMÉRICA LATINA DESACREDITA UMA REVELAÇÃO QUE, POR SER DE DEUS, DEVERIA SER FONTE E INSPIRAÇÃO DE LIBERTAÇÃO. Sem um mais sério repensar da compreensão da revelação não se tem condição de estabelecer sério diálogo com o nosso povo, com a nossa gente.
É por isto que mais do que nunca também nós devemos em nossa situação de povo latino redescobrir os laços de humanidade para vencermos todo tipo de desumanização tão presente em nosso continente, e isto é possível se juntos trabalharmos estes grandes sonhos, formando assim uma casa habitável onde todos possam morar juntos. Ver que o outro é meu irmão, e não meu inimigo a quem devo destruir:
“Aqui é Dom Helder. Está preso aí (na delegacia) o meu irmão” (um homem que estava sendo espancado). O policial levou um susto: “Seu irmão, eminência?”. “É. Apesar da diferença de nomes, somos filhos do mesmo Pai…”
Gostaria de concluir com o discurso da Lua do Papa Joao XXIII, homem de humanidade e de coracao repleto da ternura e da docilidade humana, e que em suas palavras feitas espontaneamente deixa transparecer a sua mais profunda sensibilidade da vida:
DISCURSO DA LUA
O Discurso da Lua foi proferida na Praça de São Pedro, na noite de 11 de Outubro de 1962, data da abertura do Concílio Vaticano II:
Meus queridos filhinhos, estou ouvindo as vossas vozes. A minha é só uma voz, mas reúne todas as vozes do mundo; e aqui, de fato, o mundo está representado. Poderiamos dizer que até a Lua está com pressa esta noite… Observem-na, là no alto, está olhando para este espectáculo…. Nós fechamos um grande dia de paz… Sim, de paz: Glória a Deus nas alturas, e paz aos homens de boa vontade…. Se perguntasse, se pudesse pedir agora a cada um: vós de que lugar vêm? Os filhos de Roma, que estão aqui especialmente representados, responderiam: “Ah, nós somos os filhos mais de perto, e Vós sois o nosso Bispo”. Então, filhinhos de Roma, sentem realmente estarem a representar a “Roma Caput Mundi” (Roma Cabeça do Mundo), a capital do mundo assim como por indicação da Providência foi chamada a sê-la através os séculos. Minha pessoa vale nada: é um irmão que fala para vocês, um irmão que virou pai por vontade de Nosso Senhor… Vamos continuar a querer bem um ao outro; também assim, olhando-se assim, nos encontre: apertar-se naquele que nos une, e deixar de lado, se tivesse, algo que nos pode dar um pouco de dificuldade… Voltando para casa, encontrarão as crianças. Dêem a elas uma carícia e digam: “Esta é a carícia do Papa”. Talvez as encontreis com alguma lágrima por enxugar. Tende uma palavra de consolo para aqueles que sofrem. Saibam os aflitos que o Papa está com os seus filhos, sobretudo nas horas de tristeza e de amargura. E depois todos juntos vamos amar-nos uns aos outros: cantando, suspirando, chorando, mas sempre cheio de confiança em Cristo que nos ajuda e nos escuta, continuando a prosseguir o nosso caminho. Adeus, filhinhos. À benção junto o desejo de uma boa noite.

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