Tempo da Quaresma

Querido irmão internauta, somos convidados pelo Deus da vida a entrarmos no período da quaresma. Um tempo forte para todos nós que somos cristãos. No ano passado, no dia 30 de outubro, o papa Bento XVI nos deixou uma bela mensagem convidando os fiéis do mundo todo a viver com esperança este tempo de graça e de favor divino. A mensagem do papa centrou-se sobre o tema da justiça. Neste domingo passado, durante a celebração do Angelus (14 de fevereiro) o papa fez referência novamente a esta carta da quaresma, recordando-nos o apelo evangélico de entrarmos em nós mesmos, de sairmos em direção ao êxodo de nossa fé, à busca do Deus da vida, ele nos alertava a um compromisso que nasce da vida nova em Cristo.
Trata-se de uma sincera revisão de nossa vida à luz dos ensinamentos do Santo Evangelho.
Assim a Igreja nos oferece a justa orientação para vivermos bem “este tempo de graça”, “este dia da salvação”. Trata-se da atitude interior que devemos ter para podermos nos tornar homens novos.
É no coração do homem que esta o lugar decisivo da presença de Deus. A orientação e o pedido concreto da Igreja para este ano é a tentativa de abrirmos espaço ao Deus da vida. A campanha da fraternidade vai refletir neste período a impossibilidade de servirmos a dois senhores: “Deus e o dinheiro”, trata-se de duas lógicas incompatíveis, uma da exploração e da violência, do domínio e da manipulação que só conduz o homem à “cultura da morte”; a outra, que é a evangélica, nos convida à lógica da solidariedade, transmissora da “cultura da vida”, onde reina o Deus amor. Refletir sobre isto é conceder aos homens, como nos lembra o Santo Padre citando Sto Agostinho, o verdadeiro sentido de toda justiça, que nasce do coração reto e sincero: pois, “se a justiça significa distribuir a cada um o que é seu, … então não é injustiça do homem aquela que subtrai o homem do verdadeiro Deus” (De civitate Dei, XIX, 21). Eis aqui o lugar onde a lógica se inverte, e se abre espaço para a cultura da exploração e manipulação, que conduz ao domínio do homem sobre o próprio homem, pois Deus só é plenamente Deus, onde o homem é plenamente homem.
O homem não temente a Deus perde a referência fundamental da vida e do respeito ao outro, caindo na lógica do consumismo e da perversão de todos os valores. Seu coração se torna fonte da ganância e da ambição, que acaba-nos cegando para as necessidades dos outros, nossos irmãos. Uma vez cegados, passamos a medir os outros com as nossas medidas, surge então toda espécie de violência e agressão, a indiferença passa a reinar em nossos corações. E o papa nos alerta que aqui está a fonte de toda injustiça, uma vez que “a injustiça, fruto do mal, não tem raízes exclusivamente externas, mas tem sua origem no coração humano, onde se encontram os germes de uma misteriosa conivência com o mal”.
Um coração assim cegado não será mais capaz de solidariedade e nem de não-violência. Precisamos então trabalhar o nosso coração para nos tornarmos sensíveis à presença de nosso Deus, podemos anunciar este período de graça e de favor divino posto à nossa disposição.
Neste sentido, o apostolo S. Paulo nos convida a não nos conformarmos com a mentalidade do mundo, mas a revestir-nos de Cristo, conformando-nos a ele, tanto no pensar quanto no sentir.
A quaresma pode ser então esta ocasião especial de Deus em nosso favor. Temos alguns princípios práticos, alguns valores que podem ser melhor realçados neste período. A Igreja sempre nos chamou a atenção para três, mas a lista pode aumentar dependendo da sensibilidade de cada um e das necessidades locais onde nos encontramos, ou podemos vivenciar os três modos tradicionais moldando e atualizando para nossa época.
Vejamos:
O Primeiro princípio: O jejum – trata-se de uma nova lógica, vencer hoje o jogo das aparências, das rivalidades, das competições entre nós, entre as nações, entre os estados, lógica que só divide e gera preconceitos. O jejum nos recorda a peregrinação do povo judeu, o sofrimento e as dores de tantas pessoas, é a formação de nosso coração para uma sensibilidade evangélica. O jejum nos conduz a nós mesmos, uma vez que ele nos permite o desprendimento de nós mesmos, para abrir em nós um vazio interior que poderá ser preenchido pela generosidade de nosso Deus, somente assim podemos superar e vencer a tirania e o fascínio de fazer as coisas para que os outros nos vejam com bons olhos, para não sermos criticados, no fundo o que está em jogo é a nossa liberdade interior, já não fazemos o bem pelo bem, mas somente para sermos bonzinhos, esta lógica nos aprisiona e nos faz muito mal, pois o sentido principal e fundamental nunca foi este, mas aquele que nasce do coração puro e sincero, assim o jejum nos ajuda a vencer e a purificar aquilo que nos vence, a lógica das aparências. E tudo deve ser feito na lógica do amor e do bem, e não na lógica do que os outros pensam ou deixam de pensar de mim.
A caridade – O jejum nos conduz a uma atitude concreta, trata-se do amor, da caridade. Quando deixamos de fazer algo concretamente, sobretudo, aquilo de que mais gostamos de fazer, ou comer (as cervejas do final de semana, as carteiras de cigarros que alguns fumam desenfreadamente, a arrumação dos cabelos a cada fim de semana, etc…), então fazemos com que este gasto concreto se transforme em um gesto concreto de solidariedade, pois não arrancamos nada, mas transformamos um vício, um habito, uma coisa meio supérflua em um bem maior, a caridade para com os mais necessitados. “Jesus não se preocupou somente de curar os doentes, de levar a paz aos corações aflitos e dolorosos… mas condenou também a indiferença que ainda hoje constringe centenas de milhares de ser humanos à morte por falta de alimento, de água e de medicina” (Papa Bento XVI). Eis aqui o sentido da caridade cristã.
A oração – coração de toda a vida nova do cristão. Chegados a este ponto podemos nos perguntar: Como pode o homem se libertar deste impulso egoístico e assim abrir-se ao amor? Jesus nos diz que tais atitudes nascem da intimidade com Deus, de vivermos uma relação de amor e ternura com o Pai. Para fazermos o bem temos a necessidade de vivermos e experimentarmos o amor de alguém. Se vivemos no amor do Pai, no segredo de uma vida orante e contemplativa, aprendemos a fazer o bem perfeito, concreto e livre. Somente se formos repletos da presença do Pai, e aprendermos a viver sua presença no cotidiano de nossas vidas, aumenta em nós a alegria de fazer o bem, sem olhar a quem.
É preciso fazer um caminho de oração. Uma das grandes graças de nossa Igreja aqui de Cuiabá são as “Oficinas de oração e vida” – do Fr. Inácio Larranaga. O Santuário Eucarístico sensível a esta necessidade de nosso povo abriu juntamente com as Irmãs do Bom Jesus (CEMA) duas salas, uma para adultos e outra para jovens, que terá início agora no período da Quaresma, todos os sábados às nove da manhã. Assim as pessoas poderão se aproximar de forma mais viva e concreta da oração como fonte de vida nova e de experiência de um amor que “se fez carne”, fazendo-se vida em nossa vida.

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