Vida além Túmulo

Celebrar o dia de Finados é ato de justiça para com os mortos. Os mortos, também, têm direitos e é bom que se reconheça isso. Vivemos numa cultura que extingue o passado, obscurece o futuro e fica preso a um presente emocional transitório. As orações piedosas, as celebrações, as flores, as visitas aos cemitérios, são manifestações de estima, carinho, gratidão e comunhão com aqueles que nos precederam na casa do Pai. Recordar os familiares e amigos falecidos e agradecer-lhes tudo que fizeram por nós, com certeza, nos ajudará a fazer o mesmo por aqueles que caminham conosco no hoje da vida.

Entrar em sintonia com os entes queridos falecidos nos impulsiona a viver com maior intensidade a vida que ainda temos em nossas mãos. Um dos dogmas de fé da Igreja reza: “Creio na ressurreição dos mortos e na vida eterna”. São verdades de fé inspiradas nas palavras do divino Mestre: “Eu sou a ressurreição e a vida, quem crê em mim ainda que esteja morto viverá” (Jo 11,24); “Tendes fé em Deus, tende fé em mim também. Na casa de meu Pai há muitas moradas (Jo14,2). Na perspectiva da escatologia cristã, a morte não interrompe a vida, mas transforma e plenifica a vida. Esta nova vida transfigurada, realiza o que de bom a pessoa esperou e nem sempre conseguiu neste mundo. O céu é, na verdade, a potencialização daquilo que já na terra experimentamos. Quem vive em comunhão com Deus neste mundo, viverá com Ele na eternidade.

Quem vive com Cristo neste mundo, viverá com Ele na outra vida. Quem na terra faz a experiência do bem, da felicidade, da amizade, da paz e do amor, já está vivendo, em forma precária, mas real, a realidade do céu. Por isso, a hora de amar a Deus e os irmãos é agora! A hora de perdoar e reconciliar é agora! Pois, levaremos em nossa bagagem, o bem realizado ao longo da vida. Sobretudo, a caridade para com os mais pobres e necessitados. Assim nos dirá o Divino mestre: “Vinde, benditos do meu Pai, recebei por herança o reino preparado para vós desde a fundação do mundo. Pois, tive com fome e me destes de comer.

Tive sede e me destes de beber. Estive nu e me vestistes” (Mt,25.). Este texto bíblico nos ensina que o julgamento final, será sobre o exercício da caridade, da solidariedade e do amor fraterno. Por isso, precisamos ter um olhar solidário para com os pobres e sofredores deste mundo. Um dia eles nos receberão agradecidos na casa do Pai. Na teologia Católica, a salvação é dom e graça de Deus, mas é indispensável a cooperação humana pelas obras. No dia de finados, a Igreja oferece o santo sacrifício eucarístico de Cristo e eleva a Deus suas orações confiantes pelo sufrágio de todos os fiéis defuntos, a fim de que descansem na paz de Cristo.

Neste ano, o dia de finados vem carregado de um misto de tristeza, saudade e esperança por causa das vítimas da Covid 19. Será marcado pela imensa e indescritível dor pela perda de 607.389 mortes. Estas mortes não são apenas números. São pessoas com um rosto, uma identidade e com uma história de vida interrompida! são nossos compatriotas! O sentimento de brasilidade nos impele a dizer que cada brasileiro ou brasileira que nos deixou, carregou, também, um pouco de cada um de nós. Em relação a essas perdas, o impacto foi ainda maior, quando nossos familiares, parentes e amigos foram tocados na carne com a navalha da morte, com a perda de algum de seus entes queridos. São poucas as famílias que não tiveram perdas.

É nessa hora que sentimos a batida do coração descompassar. Esta dor da separação foi potencializada pela falta do ritual dos velórios, tão importantes e essenciais, tanto no aspecto religioso como cultural, para reconstrução das identidades das pessoas que partiram e a elaboração do luto familiar. Entretanto, de tudo se tira uma lição. A pandemia nos ensinou a reconhecer nossas fragilidades, mas também, nos fez descobrir que temos forças para enfrentar as adversidades e provações inesperadas que poderão surgir novamente. Mas graças à Deus e ajuda da ciência, estamos vencendo a Pandemia.

Que as lágrimas derramadas pela perda destes entes queridos sejam aliviadas pela certeza da fé e da esperança de que um dia os encontraremos e os abraçaremos na casa do Pai. À todos os irmãos falecidos: Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno e a luz perpétua os iluminem”!
Pe. Deusdédit de Almeida é Cura da Catedral Basílica do Senhor bom Jesus de Cuiabá.

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