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CF 2024: Fraternidade e Amizade Social

“Vós sois todos irmãos e irmãs” (cf. Mt 23,8)
A Campanha da fraternidade, com 60 anos de existência(1964-2024), é o modo brasileiro de celebrar a quaresma. Ela não esgota toda a riqueza da quaresma. Porém, dá-lhe o tom, mostrando o que o pecado pode fazer quando não o enfrentamos. Por isso, cada ano, recebemos um convite para viver a quaresma à luz da Campanha Fraternidade, em espírito de conversão pessoal, comunitária e social (texto-base da CF, apresentação). Neste ano a Campanha da fraternidade tem como objetivo: “Despertar para o valor e a beleza da fraternidade humana, promovendo e fortalecendo os vínculos da amizade social, para que, em Jesus Cristo, a paz seja realidade entre todas as pessoas e povos”. Este objetivo é um grande chamamento para a construção da fraternidade humana e cristã, inspirada na carta encíclica: Fratelli Tutti, do Papa Francisco(2020). Entretanto, este sonho de Deus para humanidade parece distante da realidade que vemos e vivemos hoje. Olhando a conjuntura social, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que vivemos numa sociedade doente, dilacerada pelo ódio, pelo espírito de vingança, feminicídio, racismo e revanchismo e outros males.

A sociedade, gravemente enferma, precisa de tratamento e cura. Destacamos as duas principais causas da não-fraternidade na sociedade: a primeira é a diminuição do espírito comunitário ou de coletividade, os quais empobrecem a vida humana e cristã. A segunda causa, nas palavras do Pe. Jean Poul Hansen, secretário da CNBB para as campanhas, é a exaltação do “Hiperindividualismo solitário”. É o império das individualidades, dos gostos e escolhas pessoais, sem referência à verdade verdadeira e à uma ética comum. Realmente, o individualismo alastrou-se por todos os setores e ambientes da vida social: família, comunidades, escolas, na esfera política e nas repartições de trabalho. Sofremos, hoje, um agudo processo de subjetivação, ou seja, a pessoa é dirigida pela subjetividade. É a cultura do “você decide”. Nessa cultura, a única visão considerada verdadeira, é a visão pessoal. É o que Bento XVI chamou de ditadura do relativismo ético. Nesta linha, o filósofo existencialista ateu, Jean P. Sartre sentenciou: “O bem é aquilo que é bom para mim”. A hipervalorização da individualidade, gera o “egocentrismo”. Quando o “eu” é a referência, o outro se torna estranho e perde lugar para o sentido da comunhão fraterna com as pessoas. Acima das diferenças ideológicas, culturais, de raças e crenças, está fraternidade humana.

A democracia cresce e se consolida quando há espaço para todas as linhas de pensamento. São João Paulo II, convocou a Igreja para uma espiritualidade da comunhão, que significa sentir e acolher o outro como “alguém que faz parte de mim” (NMI, n.43). É, também, a capacidade de ver o que há de bom e positivo no outro, para valorizá-lo como dom de Deus, olhando-o com os olhos de Deus. Portanto, o único remédio capaz de curar e livrar as pessoas do individualismo subjetivista exacerbado é amizade social. O Papa Francisco afirmou: “Neste mundo que corre sem um rumo comum, respira-se a atmosfera em que a distância entre a obsessão pelo próprio bem-estar e a felicidade da humanidade partilhada parece aumentar: até fazer pensar que entre o indivíduo e a comunidade humana já esteja em cursou cisma (FT, 31).

Mas o que é amizade social? Vamos responder com as palavras da encíclica Fratelli Tutti: “É o amor que ultrapassa as barreiras geográfica e do espaço. Uma fraternidade aberta, que permite reconhecer, valorizar e amar todas as pessoas, independentemente de sua proximidade física” (FT,1). Amizade social é o “amor desejoso de abraçar a todos (FT,3). É comunicar com a vida o amor de Deus, recusando impor doutrinas por meio de uma guerra dialética(FT,4). É viver livre do desejo do domínio sobre os outros (FT, 4). É o amor que se estende para além das fronteiras” (FT,99,). Amizade social é o “amor que rompe as cadeias que nos isolam e separam, lançando pontes; o amor que nos permite construir uma grande família na qual todos nós podemos nos sentir em casa; amor que sabe de compaixão e dignidade (FT, 96). Enfim, este salutar remédio da amizade social deve ser aplicado diariamente em nossa vida pessoal, em nossa convivência comunitária, com atitudes concretas. Na busca da amizade social, olhemos para Jesus Cristo, seu estilo e sua prática: “ter os mesmos sentimentos de Jesus (Fl2,5). Foi ele quem disse: “Um só é o vosso mestre. Vós sois todos irmãos e irmãs” (Mt 23,8). João, o evangelista do amor, nos diz: “Nisto vos reconhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros (Jo13,35.). A fraternidade é nosso distintivo. Onde nasce e cresce uma relação de amizade sincera e respeitosa entre duas ou mais pessoas, aí está nascendo e crescendo o reino de Jesus de Nazaré neste mundo.

Pe. Deusdédit é Cura da Catedral Basílica do Senhor Bom Jesus de Cuiabá.

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