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Por que as religiosas usam hábito?

Por que as religiosas usam hábito?
O hábito religioso é uma roupa bela e distinta, mostrando que as irmãs consagradas são “noivas”, mas não num sentido mundano: elas são noivas de Cristo. Por isso mesmo, a beleza do hábito não é a mesma das vestes seculares; é, antes, uma beleza sobrenatural.
Este texto surgiu como uma série de conferências capitulares proferidas por uma superiora religiosa a uma comunidade de irmãs. A superiora compartilhou o texto com o prof. Peter Kwasniewski e deu-lhe permissão para editá-lo e publicá-lo. (O texto original, em inglês, encontra-se disponível aqui; a tradução portuguesa a seguir foi feita por nossa equipe.)
O Concílio de Trento declarou: “Embora o hábito não faça o monge, é necessário que os clérigos sempre usem uma veste adequada à sua própria Ordem” [1]. Ainda que o hábito não seja a causa do ser de um monge, como diz Trento, não deixa de ser necessário para o monge usá-lo (oportet… semper), porque o hábito ajuda a fazê-lo ser quem ele é.
Tomado isoladamente, o ditado popular “o hábito não faz o monge” parece afirmar que a roupa, por ser externa, não importa. Mas isso está errado. Nossas roupas nos afetam e nos formam. A roupa é muito mais do que uma proteção contra as intempéries. Para os seres humanos, ela é simbólica: é um sinal de quem eu sou e de quem eu desejo ser. O que vestimos nos forma.
Nossa formação na vida religiosa se dá principalmente pelo fazer e pelo ser. Aprendemos a ser irmãs sendo irmãs. Nosso fazer inclui o que vestimos. Aprende-se a rezar rezando; aprende-se como ser uma irmã fazendo as coisas que as irmãs fazem e vestindo o que as irmãs vestem.
Nosso hábito é lindo. Convém que seja assim, pois somos noivas de Cristo. Uma noiva deve ter uma aparência adequada! Nosso hábito reflete a realidade de que não somos noivas num sentido mundano, mas noivas de Cristo. A beleza do hábito não é a mesma do vestido secular; é antes uma beleza sobrenatural.
Nosso hábito reflete a realidade de que não somos noivas num sentido mundano, mas noivas de Cristo.
Nosso hábito nos ajuda a saber como uma irmã deve agir. Não é necessário perguntar se ela pode escalar o pinheiro do quintal: o fato de usar o hábito deixa claro que esta atividade não é apropriada para uma irmã. Um hábito serve para que todos os que nos vêem lembrem de Deus (não podem deixar de fazê-lo) e nos lembra o que deve ser uma noiva de Cristo. Até a própria palavra “hábito” nos dá uma indicação da importância da veste. Aristóteles nos ensinou que virtudes são bons hábitos. Nós adquirimos virtude interior fazendo ações exteriores. Formamos nosso coração e alma por meios externos. Se desejamos ser generosas, começamos nos “obrigando” a fazer coisas generosas. Se persistirmos nelas, a generosidade começará a crescer em nosso coração. Nós nos tornaremos generosas e começaremos a amar a realização de atos generosos. O externo forma o interno. Tornamo-nos mais plenamente noivas de Cristo através do hábito de usar trajes religiosos. Muitas tentações são removidas quando usamos um hábito: não tendemos a pensar em roupas; não somos tão facilmente tentadas a ser vaidosas; nossas ações externas são restringidas pelo hábito. Se nos sentimos desconfortáveis por estar em algum lugar ou por fazer algo estando de hábito, é um sinal de que provavelmente não deveríamos estar neste lugar ou fazendo tal coisa. O hábito é uma ferramenta de discernimento!
Ascetismo receptivo. — Além disso, o uso do hábito habitua nosso corpo e nossa alma à vida ascética.
Afinal, o hábito é quente. Supondo que todas nos vestíssemos com recato antes de entrar no convento, não creio que nenhuma de nós sonharia em nos cobrir da cabeça aos pés, com várias camadas de roupa, no calor do verão! Como parte de nossa expressão particular de modéstia, mantemos nossas pernas totalmente cobertas, mesmo por baixo de nosso hábito comprido. Nossa cabeça está coberta não apenas por um véu, mas por uma touca, um véu e depois um véu superior: três camadas! Que alívio seria usar um pouco menos (por exemplo, na cabeça) — mas não sonhamos em fazer isso e não queremos fazê-lo. Nosso hábito é um instrumento ascético. Por meio dele nos “educamos” a não buscar o nosso próprio conforto.
A ascese do hábito é muito apropriada para nós, mulheres. A força das mulheres, mesmo fisicamente, reside não tanto em grandes feitos únicos, mas na perseverança silenciosa. A força da mulher é o sofrimento silencioso. A palavra latina para “sofrer” é passio, que significa “padecimento”. Notem como o “padecimento” é receptivo: dizemos “sim” ao que vem até nós. Poderíamos dizer que a ascese em nosso hábito é uma espécie de “ascetismo receptivo”: o hábito em si não é uma penitência, mas ele pode envolver penitência para nós. E nós a aceitamos do modo como ela se nos apresenta. A ascese do nosso hábito está precisamente na sua cotidianidade, em o usarmos dia e noite, seja qual for a estação do ano, seja qual for a nossa disposição. O hábito é uma expressão de nossa autodoação.
Nosso hábito é um instrumento ascético. Por meio dele nos “educamos” a não buscar o nosso próprio conforto.
A túnica. — A parte principal do nosso hábito é o “vestido” que chamamos de “túnica”. Por que não o chamamos de vestido? Não seria uma forma mais feminina de se referir a essa parte do nosso hábito? “Túnica” é uma “palavra unissex” que parece bem pouco feminina. No entanto, optamos por usar palavras distintas das do mundo, a fim de deixar claro que nossas roupas são diferentes das roupas do mundo. Fazemos a mesma coisa em outros aspectos da nossa vida: chamamos a sala em que comemos de “refeitório” e não de “sala de jantar”. Por quê? Porque não jantamos como os leigos jantam. Os leigos não comem em silêncio, sentados em fila, enquanto ouvem uma leitura. Fazemos as refeições de uma forma diferente e, portanto, é adequado ter um nome distinto para a sala na qual nós, religiosos, fazemos as refeições. Palavras como “cela”, ao invés de “quarto”, ou “colação”, ao invés de “ceia”, são similares.
Portanto, não chamamos a parte principal do nosso hábito de “vestido” porque ele não é uma veste mundana. Todas as manhãs, quando vestimos a túnica, a oração que fazemos nos lembra que esta não é uma veste mundana, mas um vestido particularmente cristão. Nós dizemos: “Que o Senhor me revista do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade” (cf. Ef 4, 24). Colocamos uma “nova” forma de veste, não como a roupa mundana que usávamos.
A palavra “túnica” era usada para descrever a vestimenta dos antigos gregos e romanos. Era uma peça de roupa exterior simples, com ou sem mangas, na altura dos joelhos ou dos tornozelos, usada com um cinto. Os primeiros monges usavam túnicas e se referiam a elas com este termo. Encontramos a palavra “túnica” nos ditos dos Padres do Deserto e na Regra de São Bento. Visto que, na vida religiosa, queremos nos inserir na tradição iniciada pelos Padres do deserto, usamos o mesmo nome para designar esta parte da roupa.
O escapulário. — Por cima da túnica, usamos um escapulário. Por que o fazemos? Parece uma peça de roupa um tanto inútil, e esta é certamente uma das razões pelas quais ele desapareceu dos hábitos de muitos religiosos com as mudanças após o Concílio Vaticano II. O escapulário não só é inútil, como constitui também um obstáculo positivo: ele atrapalha quando você se inclina, bate no rosto do próximo quando há um vento forte etc.
O escapulário é um pedaço de tecido que fica pendurado nas scapulae, “escápulas”, ou seja, sobre os ombros. O escapulário faz parte do hábito religioso desde os tempos de São Bento (cf. Regra de São Bento, c. 55). Usamos o escapulário pela mesma razão que vestimos a túnica, ou seja, como um sinal externo de nossa união interna com a tradição da vida religiosa. O escapulário passou a ter um significado simbólico, como um jugo que carregamos sobre nossos ombros, e isso se reflete na oração que fazemos ao colocar o escapulário em nossos ombros: “Ó Senhor Jesus Cristo, que disseste ser suave o teu jugo e leve o peso de teu fardo, concede-me paciência em todas as adversidades e fidelidade às inspirações da tua graça”.
Usamos palavras distintas das do mundo para deixar claro que nossas roupas são diferentes das roupas do mundo.
A touca. — A touca se tornou moda durante a Idade Média, por volta do século XIII em diante. Todas as mulheres de boa criação usavam touca, a qual mais tarde foi reservada, por algum tempo (ao longo do século XV), para as mulheres casadas. A touca sempre foi usada com um véu. Sua ideia é que o rosto da mulher fique visível, mas o pescoço e a cabeça estejam cobertos. Embora parecesse que as mulheres leigas às vezes mostravam parte de seus cabelos quando usavam uma touca ou véu, o cabelo era visto penteado ou trançado, e não solto (o que é uma diferença importante no que diz respeito à sua atratividade).
Uma razão para o uso da touca é a mesma para o uso do véu: a de reservar a própria beleza para o seu cônjuge. É por isso que sobretudo as mulheres casadas usavam a touca (e o véu). Como lemos no Cântico dos Cânticos, até o pescoço de uma mulher pode ser belo para um homem: “O teu pescoço é como a torre de Davi, que foi edificada com seus baluartes; dela estão pendentes mil escudos, todos os escudos dos heróis” (4, 4). Uma mulher que não está “disponível”, isto é, aquela que é casada ou religiosa, não deseja, de forma alguma, chamar atenção para sua beleza física, por isso tornou-se costume que essas mulheres usassem toucas e véus. A moda mudou, mas as religiosas mantiveram o mesmo costume.
A touca sempre deixa o rosto descoberto. O que significa deixar o rosto descoberto? Primeiro, significa que uma mulher que usa uma touca não está tentando se esconder totalmente; ela não está tentando se excluir ou se separar dos outros. Ela não está excluindo a comunicação com outras pessoas. Seu rosto fica livre; na verdade, o uso da touca chama mais a atenção para o rosto, já que não há mais nada para atrair o olhar.
A touca “força” quem nos encontra a focar em nosso rosto, não em nosso corpo. Em um sentido real, nosso rosto expressa mais plenamente quem somos. Nosso rosto revela quem somos mais do que nosso corpo. Considerem que aprendemos muito mais sobre uma pessoa olhando para seu rosto do que olhando para suas mãos ou pés. Os olhos são chamados de “janelas da alma”, e esses olhos são como que realçados pela touca. A touca, então, nos ajuda a nos relacionarmos com as outras pessoas de uma forma que se harmoniza muito bem com nossa vocação. A touca chama a atenção para o “homem interior”, que encontra expressão em nossa face. Nossa touca ajuda os outros a nos olharem dessa maneira.
Em um sentido real, nosso rosto expressa mais plenamente quem somos. Nosso rosto revela quem somos mais do que nosso corpo.
A comunicação é muito mais do que a troca de palavras. Falamos com o nosso rosto, com as nossas expressões. Embora as pessoas possam considerar “desumano” que nós, irmãs, usemos todas essas camadas de roupa como parte do nosso hábito religioso, a verdade é que essas camadas que usamos podem ajudar a tornar “mais humanos” e pessoais o nosso relacionamento e comunicação com as outras pessoas.
O véu. — Ao usar um véu, nós, irmãs, nos colocamos dentro de uma tradição muito longa, uma tradição anterior ao cristianismo. Na cultura grega antiga, as mulheres casadas de respeito usavam véu. Ainda está preservada uma lei assíria, de 1400–1100 a.C., que afirma que as mulheres casadas e as viúvas nunca deveriam sair em público sem véu. Na Grécia antiga, não se considerava oportuno que uma mulher casada revelasse seu cabelo aos olhos de outros homens que não o seu marido. Em Roma, um véu chamado flammeum era a peça mais proeminente do traje usado pela noiva no dia de seu casamento.
Ao longo da maior parte da história, as mulheres casadas usaram coberturas para a cabeça. Era típico das mulheres protestantes cobrir a cabeça durante os cultos religiosos (um véu, lenço ou chapéu). Podemos pensar hoje nos menonitas ou nos amish, que ainda seguem essa tradição. Até o século XX, as pessoas comuns compreendiam facilmente o simbolismo do véu. Ainda hoje, mantemos alguns resquícios da tradição do véu na cultura secular, ao menos na forma do véu de casamento.
A primeira forma de vida consagrada a surgir na história — a consagração das virgens dentro de uma diocese, pelo bispo — foi simbolizada pela recepção do véu. Infelizmente, no rito reformado da consagração de uma virgem, a recepção do véu se tornou opcional (como tantas outras coisas na nova liturgia). O véu usado pela virgem consagrada é um véu de noiva, mostrando que a virgem é uma noiva de Cristo. Visto que a virgem consagrada e a irmã religiosa são noivas de Cristo, faz sentido que elas, como as mulheres casadas, devam usar véus para significar a mesma coisa.
Mesmo que, aparentemente, o nosso mundo contemporâneo tenha se esquecido disto, o cabelo de uma mulher é a sua maior glória (cf. 1Cor 11, 15), o símbolo de sua beleza feminina natural. O corte cerimonial do cabelo é um sinal da doação total que a religiosa faz de si mesma; um sinal da entrega de toda a sua beleza natural, a fim de que a sua vida esteja escondida em Cristo. A oração de bênção do véu branco diz: “Que seja bendito, imaculado e santificado o véu desta vossa escrava, a fim de que a sua vida esteja escondida com Cristo em Deus” [2]. Nós velamos a nós mesmas por um motivo semelhante ao do uso da touca: escondemos o que pode atrair outras pessoas ao nosso corpo, de modo a enfatizar a importância do “homem interior”. O véu serve para nos proteger: ele nos protege de chamar uma atenção indevida sobre nós mesmas e serve como um sinal para indicar que “não estamos disponíveis” — ainda que o véu não seja mais um símbolo comum a indicar que uma mulher é casada.

Fonte:

https://padrepauloricardo.org/blog/por-que-as-religiosas-usam-habito

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