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Um pouco da história das Irmãs Azuis na Arquidiocese de Cuiabá

No dia 9 de março de 1811, em Toulouse, no sul da França, nasceu Jeanne Emilie de Villeneuve, de família nobre, cresceu no Castelo de Hauterive, próximo a Castres, onde recebeu uma educação baseada em valores morais e cristãos, convivendo com suas irmãs mais velhas e seu irmãozinho.
Ainda na adolescência enfrentou grandes tribulações com a morte de sua mãe, quando tinha 14 anos, e três anos depois, a de sua irmã mais velha, Octavie. Emilie cresceu, então, como uma jovem reservada, mas com sentimentos sinceros de preocupação com aqueles à sua volta. As perdas que sofreu com tão pouca idade contribuíram para um maior amadurecimento do seu caráter e da sua fé, e lhe fizeram perceber a realidade de outra maneira, despertando o que viria a ser as sementes de sua vocação.
Com o passar do tempo, floresceu em Emilie um desejo de ser totalmente de Deus, consagrando-se à Ele, para poder se dedicar aos mais pobres e necessitados, pelos quais o Senhor sempre mostrou maior predileção. Contudo, sua família não compreendeu essa vontade que manifestava, tanto que, seu pai, pediu que esperasse por quatro anos, a fim de que tivesse certeza de que esse era o caminho pelo qual queria seguir. Esse intervalo serviu apenas para reafirmar no coração de Emilie seu desejo de ser inteiramente de Deus, além de despertar-lhe o chamado para fundar uma congregação.
Após um breve noviciado, no dia 8 de dezembro de 1836, na cidade francesa de Castres, funda, com mais duas religiosas, a Congregação de Nossa Senhora da Imaculada Conceição de Castres; sendo que logo ficaram conhecidas como Irmãs Azuis de Castres em vista do hábito azul que escolheram em homenagem ao Manto Sagrado de Nossa Senhora.
Assim, iniciou-se a jornada de devoção das Irmãs Azuis para com os mais pobres: com uma oficina de costura, que era dedicada a profissionalizar moças carentes e ofertar-lhes um meio de subsistência. Já em 1848 as Irmãs rumaram à África, a fim de oferecer, em missão, auxílio a comunidades necessitadas no Senegal, na Gâmbia e no Gabão. Apesar de ser uma Congregação jovem, seguiam em consonância com o propósito ambicioso de sua fundadora: “Ir sem hesitação, lá onde a voz dos pobres nos chama.”
Mesmo com a morte de sua fundadora, numa grande epidemia de cólera que assolou a França em 1854, sendo Emilie a última vítima da doença de que se teve notícia naquela ocasião, as Irmãs Azuis não apenas conservaram seu ardor missionário, como expandiram-no, fazendo frutificar o carisma da boa madre Emilie pelo mundo.
Assim, após anos de dedicação para com as missões em terras africanas, as irmãs percebem outra voz clamando por ajuda, dessa vez, vindo da América Latina, em especial, do Mato Grosso. Em vista da falta de “operários para a messe”, a pedido de Dom Carlos Luiz D’Amour, então bispo da Diocese de Cuiabá, seis irmãs azuis, quatro padres, dois irmãos e três noviços embarcaram no porto de Bordéus em agosto de 1904 para serem enviados nessa missão em terras tão longínquas.


Depois de longa viagem, as Irmãs Azuis chegaram a Cuiabá em 26 de outubro de 1904, e prontamente assumiram a direção do Asilo Santa Rita, logo iniciando, na sua comunidade recém-criada, aulas de costura, bordado e piano, além de preparações para a Eucaristia, para o Batismo e para o Matrimônio. As “Apóstolas de Mato Grosso” (como foram carinhosamente chamadas pela Madre Saint Jean) prontificaram-se com muito entusiasmo e foram acolhidas com muito carinho pela população. Sendo que a obra não se restringiu a Cuiabá, em primeiro de janeiro de 1907 chegaram também em São Luiz de Cáceres.
O espírito missionário das Irmãs Azuis também se mostrou presente junto aos doentes. As condições precárias vividas pela população favoreciam a dispersão de enfermidades como febre amarela, tifo, varíola negra e peste bubônica; então, as religiosas, inseriram-se onde ninguém queria estar, ao lado dos enfermos, para aliviar seu sofrimento e levar-lhes os ensinamentos do Evangelho; prestando socorro ao povo e doando suas vidas, de maneira que não era raro as irmãs sucumbirem às doenças.
Cita-se aqui, as duas primeiras missionárias azuis mártires no Brasil: Irmã Marie Angèle Rieu, que faleceu em 1907, de beribéri, e irmã Ambroisine, em 1910, de tifo; não há nenhum registro sobre seus sepultamentos, presumidamente realizados no antigo cemitério conhecido por “Cai Cai”, em Cuiabá, onde eram jogadas as pessoas vitimadas pela peste. Seus corpos, sepultados anonimamente em terras brasileiras, são sementes de vida que morrem para fazer surgir a força da missão e lembram que “se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica só; mas se morre produz muitos frutos”. Dessa forma, apesar das perspectivas alarmantes, o amor missionário não se abalava, e cada vez mais irmãs juntavam-se às missões em solo brasileiro.
Assim, em Cuiabá, as irmãs ganharam lugar no coração da população não apenas como professoras competentes, como catequistas amáveis e incansáveis, ou por dedicarem-se aos órfãos, mas também, por literalmente entregarem sua vida no cuidado dos enfermos. Por tais motivos, foi com grande pesar que a comunidade recebeu a notícia da saída das Irmãs Azuis da Diocese de Cuiabá em 1922. Com a morte do bispo que as convidou, e a nomeação de Dom Aquino Correia, religioso salesiano, e sua decisão de chamar religiosas de sua própria congregação para assumir os cuidados do Asilo Santa Rita; as Irmãs Azuis tiveram de deixar Cuiabá.
O exílio, contudo, não desanimou seu fervor missionário! Os lugares onde atuavam se multiplicavam, de modo que chegaram em Poconé em 1928, e as sementes que a “brisa do Espírito espalhava nessa terra” davam frutos. Com o tempo, passaram a atuar no Hospital em Cáceres e na Santa Casa de Poconé. Em 1941, inauguraram o Colégio Notre Dame em São Paulo, em 1961 estenderam suas ações a Santa Catarina, em 1966, ao Espírito Santo e em 1968, a Minas Gerais.
Mas, depois de 49 anos de afastamento, as Irmãs Azuis, entre lágrimas de alegria e saudades, retornaram a Cuiabá para continuar o trabalho iniciado anteriormente. O então arcebispo Dom Orlando entregou-lhes a direção de uma paróquia no bairro Cidade Alta no dia de sua fundação, em 31 de janeiro de 1971. Na missa de abertura, celebrada pelo arcebispo, as irmãs foram presenteadas com dois ramalhetes de rosas: um de flores vermelhas, representando as religiosas que chegaram em 1904, e outro de flores cor-de-rosa, em homenagem a nova comunidade. A partir desse momento, as religiosas fizeram da paróquia sua casa para morar e evangelizar, logo usaram das salas ao fundo da Igreja para a constituição de uma escola. Desta forma, as Irmãs Azuis assumiram uma dupla missão: o Colégio Notre Dame de Lourdes e a paróquia São João Bosco, lançando-se com igual entusiasmo ao duplo trabalho.
Junto com as atividades do Colégio, assumiram a catequese na paróquia e nas escolas do bairro, cursos bíblicos para adultos, visita às famílias, pastoral da juventude, campanhas promocionais, cursos de preparação ao Batismo, ao Matrimônio e à Crisma. Todas as noites havia reflexão evangélica e distribuição da Eucaristia, tudo administrado pelas irmãs. Só deixaram a direção em 1993, ao entregarem as chaves da Paróquia aos padres diocesanos.
Em 2015, a Congregação partilhou também com a Paróquia a alegria de ter sua fundadora canonizada no dia 17 de maio pelo Papa Francisco, tendo o dia 3 de outubro como data da veneração da agora Santa Emilie de Villeneuve.
Por isso a Paróquia será eternamente grata às Irmãs Azuis pelas sementes do Espírito que aqui foram plantadas. E por terem sustentado o ânimo da Paróquia São João Bosco em seu humilde começo, tal qual a semente de mostarda, que apesar de ser a menor de todas as sementes, ao ser regada com os Dons do Espírito, cresce e torna-se uma árvore tão frondosa, que as aves do céu vêm fazer ninhos em seus galhos.

Pe. Elilzo Marques de Oliveira (Pároco – Paróquia São João Bosco – Cuiabá MT)

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