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Artigo | A imagem do Senhor Bom Jesus e a idolatria

A queda da imagem do Senhor Bom Jesus, durante a tradicional procissão de 1º de janeiro, na Catedral de Cuiabá, causou repercussão não só entre os católicos, mas em toda a população. Vale a pena, pois, esclarecer alguns pontos sobre a doutrina católica a respeito do uso das imagens em suas celebrações.

Por conta de uma interpretação unilateral das Sagradas Escrituras, tem-se a ideia, em alguns ambientes, de que as imagens, por si só, seriam uma forma de idolatria. Para isso, cita-se frequentemente o capítulo 20, versículo 4, do livro do Êxodo, no qual se afirma: “Não farás para ti escultura, nem figura alguma do que está em cima, nos céus, ou embaixo, sobre a terra, ou nas águas debaixo da terra”.

Acontece que o mesmo livro, no capítulo 25, versículo 18, apresenta uma ordem de Deus para a edificação de imagens de dois querubins para a Arca da Aliança, a qual os hebreus tinham como objeto sagrado e digno de honra.

Nesse sentido, deve-se compreender que a proibição de Deus se refere à confecção de ídolos pagãos, falsos deuses aos quais se prestava culto de latria no Antigo Testamento. Por outro lado, as imagens por si mesmas não são imorais ou contrárias ao 1º mandamento de adorar somente a Deus. As imagens sacras da Igreja Católica não pretendem ocupar o lugar do Deus único e Santíssimo, mas justamente encaminhar cada fiel a reconhecê-lo como Senhor de suas vidas. Por isso, ensina Santo Tomás de Aquino:

“O culto da religião não se dirige às imagens em si mesmas como realidades, mas olha-as sob o seu aspecto próprio de imagens que nos conduzem ao Deus encarnado. Ora, o movimento que se dirige à imagem enquanto tal não se detém nela, mas orienta-se para a realidade de que ela é imagem”.

A adoração, de fato, é algo que se deve somente a Deus. Nós, católicos, adoramos a Trindade Santíssima especialmente no culto da Santa Missa, no qual celebramos o augusto sacrifício de Nosso Senhor Jesus para a redenção da humanidade. Com efeito, no dia a dia, honramos também as imagens do Sagrado Coração, bem como as imagens da Virgem Maria e dos santos, como exercício de piedade popular para a catequese dos simples e cristianização dos ambientes seculares. Quem não eleva o pensamento aos céus contemplando a imagem do Redentor no Corcovado?

Desde o século III, é possível encontrar ícones de Jesus: os mais antigos estão em Roma, como o “grafite de Alexámenos”, no monte Palatino, e o “Bom Pastor”, nas catacumbas de São Calixto. Depois da controvérsia iconoclasta, em 787, o VII Concílio de Niceia defendeu oficialmente o uso de imagens sacras nas celebrações católicas. É graças a esse entendimento que temos obras de arte como a Pietá e a Capela Sistina, de Michelangelo. A esse respeito, vale assistir ao debate entre o padre José Eduardo e o pastor Paulo Sérgio, no YouTube.

A imagem do Senhor Bom Jesus de Cuiabá também tem o seu valor artístico e espiritual para a história da capital mato-grossense. Certamente, a queda da imagem não é a queda de Jesus em si mesmo, mas faz pensar nas quedas de Cristo a caminho do Calvário: foram quedas pelo nosso pecado. Aproveitemos, pois, esta ocasião para permitir que o Senhor nos levante, pedindo perdão de nossas faltas e ofensas.

Padre Renan Cunha é jornalista e diretor-geral da rádio Bom Jesus Fm 92,7

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