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Reflexão 5o Domingo da Páscoa

AMAR É DAR A SI MESMO O GOSTO DE VIVER E SER FELIZ
At 14,21b-27  Ap 21,1-5a Jo 13,31-33a.34-35
Queridos irmãos e irmãs internautas, este Domingo traça para nós uma nova estação em nossa vida. Chegamos ao centro da revelação cristã: a vida no amor! São Paulo sintetiza esta novidade quando diz que “quem ama cumpriu toda lei”. Para São Tiago o amor é maior força na vida, mas forte que o pecado: “O amor cobre uma multidão de pecados”. E São João faz um salto que a tudo supera e transcende, ele se transpõe para o próprio íntimo de Deus e reconhece: “Deus é amor”, por isso que quem ama anda sempre no amor, não cansa e nem se cansa. É isto que as leituras de hoje querem nos iluminar, situar-nos numa nova esfera de relações e de presença divina, que acontece por trás de todas as cenas de nossas vidas.

Perceber a mão delicada de Deus que tudo percorre, tudo envolve e tudo atrai foi o maior presente que Cristo nos deixou e nos abriu com a sua Páscoa, rolando a pedra do túmulo, ele então realizava a total remoção de tudo aquilo que nos bloqueia em nossa vida, que nos impede de tocar a realidade mais concreta de nosso viver: o amor!Esse amor é a própria presença do Reino de Deus atuando na história do mundo. São Paulo na primeira leitura de hoje, nota um momento dramático da presença deste Reino: “É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus”. Muitas vezes os apóstolos tiveram que passar por momentos de desanimo, outras vezes estavam cansados e desencorajados, até mesmo sem alentos para a missão, parecia em vão o seu trabalho e toda a sua dedicação; porém, também neste estado de desanimo e de tristeza eles professam a total confiança no Senhor: “Encorajando os discípulos, eles os exortavam a permanecerem firmes na fé”… “Com orações e jejuns, eles os confiavam ao Senhor, em quem haviam acreditado”… “Anunciaram a palavra em Perge, e depois desceram para Atália. Dali embarcaram para Antioquia… entregues à graça de Deus, para o trabalho que haviam realizado. Chegando ali… Contaram-lhe tudo o que Deus fizera por meio deles e como havia aberto a porta da fé para os pagãos”. Veja que lindo. Tudo parecia vencer o apostolado, mas na verdade eles eram vencidos pela força do amor! Sabiam que a única razão do viver era Cristo a ponto de considerar lucro todo tipo de morte e falimento, aqui podemos ver uma coisa estupenda: que grande liberdade interior animava esses homens tão destemidos.
O amor invertia para eles toda lógica normal e humana! É isso que acontece com todas as pessoas que amam. Mas foi a Palavra do Senhor que os iluminava e lhes dava coragem, percebiam que todo este período de dificuldades: expulsão de Israel, que significava para eles toda espécie de maldição – pois Jerusalém era considerado o lugar das promessas de Deus –; a perseguição nas sinagogas, realizadas pelos irmãos de sangue e de descendência; o massacre por parte das autoridades romanas, que se sentiam ameaçados pela nova religião do amor e da solidariedade, todas essas dificuldades eram somente condição para uma abertura maior. No meio de um mundo que se desmoronava, como era o caso do império romano, ameaçado de todos os lados, vivendo das suspeitas, impondo a paz por meio da guerra, como rezava um antigo lema dos romanos e entre os romanos: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra!” Que clima medonho, que terra de instabilidade, que lugar amedrontador! E no entanto, que bela resposta os cristãos davam a tudo isso: a fé, fonte de toda vitória. São João chega a dizer: “a fé é a nossa vitória”.
Por isso o Apocalipse não cessa de cantar no meio de um clima tão horrível a presença desse Reino que começa a florescer como presença de AMOR, presença de DEUS! “Eu, João, vi um novo céu e uma nova terra… Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus, vestida qual esposa enfeitada para o seu marido…“Esta é a morada de Deus entre os homens. Deus vai morar no meio deles. Eles serão o seu povo, e o próprio Deus estará com eles. Deus enxugará toda lágrima dos seus olhos. A morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem choro, nem dor, porque passou o que havia antes”.Aquele que está sentado no trono disse: “Eis que faço novas todas as coisas”. Quando tudo parecia só desgraça e aflição, João vê algo diferente, não para o futuro, nem mesmo para adiante, mas na própria situação presente, ele vê na fé a multidão dos eleitos que seguem o Cordeiro, que o amam e nele aprendem a amar, que respondem a toda espécie de mal recebido em amor obediente e generoso, feito serviço e entrega. Aqui poderíamos citar várias passagens dos mártires que alegremente se ofereciam em oblação e tinham alegria em se entregar, não faziam por sacrifício e nem sentiam nisto um constrangimento, mas eram livres para amar, e só não aceitavam que lhes negasse este único dom: amar até o fim, imitando o Senhor Jesus. Um dos exemplos que nos iluminam é a de Sto Inácio de Antioquia, que quando se preparava para o suplício de seu martírio, dizia: “Quando eu for imolado com o meu Senhor, então eu serei cristão! Começo agora a ser discípulo!”
O amor transforma tudo! No evangelho de hoje encontramos uma situação análoga. Judas sai do cenáculo, lugar do calor e da presença do mestre, sabemos o que sucederá: a traição de Judas. A missão de Jesus junto aos apóstolos parece terminar com uma falência total, uma traição que os evangelhos insistem em repetir. Algumas linhas anteriores o próprio São João diz que Jesus estava com a alma perturbada, profundamente comovido, mas Ele não para nesta perturbação interior. Também ele se deixou iluminar por Deus, e depois que Judas saiu, sua palavra não é uma palavra de derrota, mas de vitória: “Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele. Se Deus foi glorificado nele, também Deus o glorificará em si mesmo, e o glorificará logo”! Estamos diante de uma visão divina. Jesus vê as coisas em profundidade, não pára nas aparências, percebe nas ações humanas mais terríveis, a ação de Deus que tudo transforma: a mais profunda humilhação é ocasião de uma imensa glória. No momento em que ele aceita, também em sua humanidade frágil, impotente, suscetível à dor e ao sofrimento, todas as humilhações, realiza-se ali mesmo a redenção do mundo, a salvação do homem. Pois somente podia ser redimido o que realmente fosse assumido pelo próprio Deus. E isso é o amor em sua maior “profundidade, largura, comprimento e altura”, que se expande em todas as direções e se estende em toda verticalidade do vazio do nada sem Deus, até fazer habitar a própria presença de Deus naquilo que parecia ser o anti-Deus.
A Glória de Deus passa a ser o conteúdo do amor, aquilo que lhe dá peso, que fundamenta, pois, como dizia Sto. Irineu: “A Glória de Deus é o homem vivo”. Deus é glorificado se o homem é plenificado, onde existe ainda miséria, fome, doenças, onde a caridade ainda não enlaça com seu perfume, então ainda não temos a presença do Reino atuando em toda sua Glória, pois Deus é plenamente Deus, onde o homem é plenamente homem! Quanta coisa poderíamos nos questionar agora, quantas inverdades nos são passadas, quanta cegueira ainda nos cerca, quanta insensibilidade nos amarra! Somos programados por uma sociedade de consumo e de prazer! Somos domesticados a uma total passividade reativa, que nos envolve através do medo e de uma mentalidade de reação. Somos prisioneiros do medo e das nossas inseguranças.
Deste modo ainda não estamos vivendo em plenitude o dom do amor, nossas respostas são ecos de nossas violências interiores. Mas eis que no meio de tudo isso ainda hoje ecoa a voz da verdade mais profunda do homem: “Filhinhos: eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”.
O amor desfaz todo temor, no amor não existe medo! Quem ama é livre, por isso ainda hoje precisamos da medida de Cristo, de sua presença, para não mais nos iludirmos com um amor falsificado dentro de nós, por isso Ele fez questão de superar a prerrogativa do Antiga Aliança, ainda frágil e transitória, em relação ao amor, para um judeu piedoso bastava amar o próximo como a si mesmo, Jesus rompe esta medida mesquinha e eleva definitivamente o amor. É por isso que n’Ele aprendemos a encarar a verdade, a ver cada coisa como elas são, para não mais nos enganarmos! Sem Jesus nosso amor pode se tornar uma mentira, e isso levará conseqüentemente a desencadear em nós uma série de problemas e sofrimentos, mas o segredo que o evangelho hoje nos apresenta de amor que liberta só chegará a nós quando nos cansarmos de sofrer. Tem pessoas que passam a vida toda querendo amar e ser livres, mas foram de tal modo programadas a serem reativas, que não conseguem fazer o passo decisivo do amor, e assim passam a vida toda sofrendo em vão. É preciso ser receptivo, sem ser crédulo, ingênuo. É isso que se chama abertura de mente e de coração, fruto verdadeiro do amor! Assim quem aprende a amar aprende a realizar a sua profunda vocação.
Assim para terminar de forma aberta esta meditação gostaria de deixar aqui a possibilidade de vocês, queridos irmãos na fé, fazerem seu próprio caminho que está aberto, como um horizonte que se estende ao infinito, assim são as nossas possibilidades de realização e portanto de amor concreto, empenhativo, a única coisa que podemos dizer é a seguinte: Não podemos definir o amor, defini-lo é destruí-lo, mas podemos indicar a via para fazê-lo crescer, é como plantar uma rosa, a qual devemos cercá-la de adubo, regá-la com carinho, protegê-la das intempéries. E um dia, ao improviso, desponta uma flor e a sua casa é inundada de perfume. É assim que o amor ocorre! Com as palavras de Jesus podemos até ousar dizer que o amor é a única religião, a única forma do encontro da humanidade e divindade, o único mistério que vale a pena viver e compreender. Quando compreendemos o amor, então teremos compreendido todos os sábios, santos e místicos do mundo, porque “nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros”!

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